As recentes mudanças geopolíticas na Venezuela, marcadas pela dramática operação militar dos EUA em 3 de janeiro de 2026, geraram repercussões nos mercados internacionais. No entanto, para o setor industrial brasileiro, o impacto imediato parece notavelmente contido.
Líderes industriais no Brasil sugerem que, embora a situação esteja sendo monitorada de perto, a exposição comercial do país à Venezuela diminuiu de forma tão significativa na última década que mesmo grandes convulsões militares e políticas ao lado dificilmente causarão um choque localizado.
Resiliência Industrial e Exposição Limitada
Diversos setores-chave no Brasil relataram uma postura de normalidade, apesar da instabilidade vizinha:
- Cosméticos e Higiene Pessoal: A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) observa que a Venezuela representa atualmente apenas 1,4% das exportações totais do setor.
- Mineração e Têxtil: Tanto o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) quanto a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) não relatam interrupções imediatas. A ABIT destacou o declínio acentuado no comércio, observando que entre janeiro e novembro de 2025, as exportações têxteis para a Venezuela somaram apenas US$ 6 milhões — uma fração mínima do volume anual de exportações globais do setor, que é de cerca de US$ 1 bilhão.
- Plásticos e Manufatura: A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) confirmou que pouquíssimos transformadores estão ativos no mercado venezuelano hoje, principalmente devido a dificuldades passadas com pagamentos e à retração do mercado.
O Contexto Mais Amplo Brasil-Venezuela
A relação entre as duas nações encontra-se atualmente em uma encruzilhada complexa. Historicamente, o comércio era robusto, atingindo picos de mais de US$ 6 bilhões no início da década de 2010. Hoje, a relação está desgastada por uma dívida não paga de aproximadamente US$ 1,74 bilhão da Venezuela com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Além disso, o comércio local no estado fronteiriço de Roraima continua sendo um ponto de atrito; até o final de 2025, a Venezuela havia imposto tarifas elevadas (variando de 15% a 77%) sobre produtos brasileiros como farinha e açúcar, dificultando a vida dos exportadores regionais mesmo antes da recente intervenção americana.
Potencial “Lado Positivo” para o Brasil
Embora a perspectiva atual seja de cautela, líderes industriais veem um possível benefício a longo prazo caso a transição liderada pelos EUA resulte na recuperação do setor petrolífero venezuelano.
- Menores Custos de Produção: A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo provadas do mundo. Se modernizada e reaberta ao investimento global, um aumento na oferta poderia reduzir os preços globais do petróleo.
- Matérias-primas mais Baratas: Para a indústria do plástico, preços mais baixos do petróleo traduzem-se diretamente em menores custos para resinas e derivados.
- Retorno ao Mercado: Uma Venezuela estabilizada poderia permitir que o Brasil retomasse seu papel como principal fornecedor de produtos manufaturados, alimentos e tecnologia para o vizinho do norte.
Por ora, o governo brasileiro mantém uma postura cautelosa, equilibrando seu interesse estratégico na estabilidade regional com a realidade de seus reduzidos laços econômicos com a atual administração de Caracas.